O que define o Transtorno Factício?

A característica central é a falsificação intencional de sinais ou sintomas, sejam eles físicos ou psicológicos. Sendo assim, o paciente pode simular uma doença, exagerar uma condição real ou até provocar lesões em si mesmo.

Ponto chave para o diagnóstico: Deve haver evidência clara de engano/farsa, mas sem a presença de ganhos externos óbvios (como benefícios financeiros ou evitar responsabilidades legais). Portanto, o objetivo do paciente é assumir o papel de doente por motivações psicológicas internas.

Quais são os dois principais tipos de apresentação?

  1. Imposto a si mesmo: Quando o próprio indivíduo finge ou causa a doença em si.

  2. Imposto a outro: Quando alguém (geralmente um cuidador) apresenta outra pessoa como doente ou lesionada.

Como esse transtorno é classificado atualmente?

Tanto no DSM-5 quanto na CID-11, ele faz parte da categoria de Transtornos de Sintomas Somáticos e Transtornos Relacionados. Isso ocorre porque esses pacientes costumam procurar o ambiente médico com queixas físicas e compartilham características de tratamento com outros transtornos somáticos.

O que é a Síndrome de Munchausen e como ela se diferencia?

Embora o termo seja antigo, na prática clínica atual ele descreve a forma crônica e grave do transtorno factício. Algumas características a distinguem:

  • Estilo de vida: A busca por hospitais torna-se o centro da vida do paciente, impedindo-o de manter empregos ou relações estáveis.

  • Identidade: Frequentemente criam histórias grandiosas sobre quem são (parentes de famosos, heróis, etc.).

  • Peregrinação: Viajam constantemente entre cidades e hospitais para evitar serem reconhecidos após a descoberta da farsa.

  • Pseudologia Fantástica: Contam mentiras complexas, heroicas e detalhadas para sustentar sua narrativa médica.

Existe um perfil comum para casos menos graves?

Sim, visto que além do quadro grave de Munchausen, existe o chamado transtorno factício comum. Nesse sentido, o perfil típico desse paciente costuma ser:

  • Mulher jovem;

  • Trabalhadora da área da saúde;

  • Socialmente inserida e com emprego estável;

  • Os sintomas e a procura médica ficam restritos a uma única região ou localidade.
     

Como o DSM-5 e a CID-11 definem o Transtorno Factício?

Ambos os manuais concordam que o transtorno se baseia em três pilares:

  • Ação Deliberada: O indivíduo finge, cria ou agrava sinais e sintomas de doenças ou lesões.

  • Apresentação como Enfermo: A pessoa se apresenta (ou apresenta outra pessoa) a terceiros como doente ou incapacitada.

  • Ausência de Lucro Externo: O comportamento ocorre mesmo sem recompensas óbvias (como dinheiro, folga no trabalho ou fuga de responsabilidades legais). O objetivo é o papel de doente por si só.

Qual a diferença entre o transtorno imposto a si mesmo e o imposto a outro?

  • Imposto a si mesmo: O próprio paciente sabota sua saúde ou mente sobre sintomas para receber cuidados médicos.

  • Imposto a outro: O indivíduo causa ou simula doenças em outra pessoa sob seus cuidados (geralmente um dependente). Importante: O diagnóstico médico vai para o agressor, não para a vítima.

O que o médico deve excluir antes de fechar esse diagnóstico?

Para diagnosticar o Transtorno Factício, o médico deve garantir que os sintomas não são melhor explicados por:

  • Outros transtornos mentais: Como o transtorno de escoriação (cutucar a pele compulsivamente).

  • Simulação (Malingering): Quando o paciente finge estar doente claramente para obter um ganho externo (ex: evitar a prisão ou obter indenização).

Quem são os agressores e as vítimas mais comuns no "Transtorno Imposto a Outro"?

  • As estatísticas mostram um padrão claro:

  • 95% dos casos: A agressora é a mãe e a vítima é o próprio filho.

  • Outros cenários: Pode ocorrer contra idosos, cônjuges ou até por profissionais de saúde contra seus pacientes (casos raros de mortes hospitalares suspeitas).

Como esse quadro é classificado juridicamente?

Na literatura médica e forense, como esses casos quase sempre envolvem maus-tratos ou abuso de vulneráveis, os termos utilizados são "agressor/perpetrador" e "vítima". Logo, o médico deve estar ciente de que, ao identificar este transtorno imposto a outro, está diante de um caso de abuso que exige intervenção legal e proteção à vítima.

Resumo de Specifiers (Especificadores) para o Prontuário:

Ao registrar o caso, o médico deve observar se o quadro é:

  • Episódio Único: Apenas um evento de falsificação.

  • Episódios Recorrentes: Dois ou mais eventos distintos de indução ou simulação de doença.

Por que não usamos mais o termo "Munchausen por Procuração"?

O termo mudou para Transtorno Factício Imposto a Outro no DSM-5 para padronizar a nomenclatura psiquiátrica. No entanto, na pediatria, a Academia Americana de Pediatria prefere o termo "Doença Fabricada pelo Cuidador". Por isso, essa mudança serve para focar no dano causado à criança (abuso infantil) e menos na motivação psicológica de quem agride.

 

Referência: BOLAND, Robert J.; VERDUIN, Marcia L. (Eds.). Kaplan & Sadock's Comprehensive Textbook of Psychiatry. 11. ed. Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins, 2024.