Por que não podemos tratar crianças e adolescentes como "adultos pequenos" na prescrição?

Porque o corpo de um jovem processa medicamentos de forma muito diferente. Sendo assim, as diferenças na farmacocinética (como o corpo absorve, distribui e elimina a droga) e na farmacodinâmica (como a droga age no organismo) impactam diretamente na dosagem, na eficácia e, principalmente, na tolerância aos efeitos colaterais. Por isso, o desenvolvimento contínuo do paciente altera a resposta terapêutica ao longo do tempo.

Qual o papel da medicação dentro do plano de tratamento pediátrico?

A farmacoterapia raramente deve ser usada isoladamente. Nesse sentido, ela é uma parte integrante de um plano maior que deve incluir:

  • Psicoterapia (individual, em grupo ou familiar);
  • Treinamento de pais;
  • Intervenções educacionais e escolares;
  • Tratamento de comorbidades (como transtornos por uso de substâncias).

Qual a primeira escolha para transtornos de ansiedade em jovens?

Os Inibidores Seletivos de Reabsorção de Serotonina (ISRS) são considerados superiores a qualquer outra classe. Entre eles, destacam-se a sertralina, fluoxetina, escitalopram, fluvoxamina e paroxetina.

Nota clínica: Estudos indicam que os ISRS apresentam resultados mais rápidos e robustos do que os Inibidores de Reabsorção de Serotonina e Noradrenalina (IRSN).

Quais fármacos são aprovados pelo Food and Drug Administration (FDA)  que é uma agência governamental dos Estados Unidos responsável por proteger a saúde pública, equivalente à Anvisa no Brasil para o Transtorno Depressivo Maior (TDM) em pediatria?

Atualmente, a fluoxetina e o escitalopram possuem aprovação oficial do FDA para o tratamento da depressão em jovens. Embora outros ISRS também mostrem eficácia, o médico deve estar atento ao "alerta de caixa preta" (boxed warning) sobre o risco aumentado de ideação e comportamento suicida nessa faixa etária, apesar de metanálises recentes apresentarem dados divergentes sobre essa correlação.

Quais agentes são recomendados para o tratamento da mania aguda em jovens?

Os antagonistas mistos de dopamina e serotonina (antipsicóticos de segunda geração) são os mais eficazes. Assim, seis agentes possuem aprovação do FDA para mania pediátrica:

  1. Lítio;
  2. Risperidona;
  3. Aripiprazol;
  4. Quetiapina;
  5. Olanzapina;
  6. Asenapina (Não disponível no Brasil).

Diferente dos adultos, os anticonvulsivantes apresentam resultados muito inconsistentes em jovens, sendo geralmente considerados opções de segunda linha.

Como abordar a esquizofrenia na adolescência (13 a 17 anos)?

Os antipsicóticos de segunda geração (Aripiprazol, Lurasidona, Olanzapina, Quetiapina, Risperidona e Paliperidona) são o tratamento de primeira linha.

  • Casos refratários: A clozapina demonstrou superioridade (especialmente sobre o haloperidol e a olanzapina) na redução de sintomas negativos e na resposta global em casos difíceis de tratar.

Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH)

Qual a eficácia dos estimulantes no tratamento do TDAH?

Medicamentos baseados em anfetamina e metilfenidato são altamente eficazes, com taxas de resposta entre 65% e 75%. Não há diferença significativa na taxa de sucesso entre as formulações de liberação imediata ou estendida.

Existem opções não estimulantes eficazes?

Sim. Além de inibidores de reabsorção de noradrenalina como a atomoxetina, as formulações de liberação prolongada de clonidina têm eficácia comprovada por estudos clínicos, podendo ser usadas como monoterapia.

Conclusão Prática

Para uma prática segura, o clínico deve sempre cruzar o conhecimento dos estudos controlados com as particularidades biológicas da criança. Por isso, o monitoramento contínuo é essencial, dado que o desenvolvimento do paciente pode alterar a eficácia e a segurança da medicação a qualquer momento.

Observações complementares:

Algumas medicações a Anvisa e a FDA divergem sobre a idade mínima ou o transtorno:

  • Escitalopram:  é indicado para depressão (MDD) em jovens com aprovação do FDA. No Brasil, a bula aprovada pela Anvisa geralmente foca em adultos, e o uso em crianças é frequentemente considerado off-label (embora comum na prática especializada).
  • Paliperidona: Citada para esquizofrenia em adolescentes. No Brasil, ela está disponível (inclusive em formas injetáveis de longa duração), mas seu uso no SUS e as indicações formais de bula podem ser mais restritas a adultos do que nos EUA.

Referência: BOLAND, Robert J.; VERDUIN, Marcia L. (Eds.). Kaplan & Sadock's Comprehensive Textbook of Psychiatry. 11. ed. Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins, 2024.