1. Limitações das técnicas convencionais e a profundidade psicodinâmica:

Diferente de abordagens mais focadas no comportamento (como a TCC), a visão psicodinâmica busca compreender o "como" e o "porquê" de o paciente reagir a certos conflitos. Nesse sentido, ela foca na experiência subjetiva: como cada indivíduo lida com seus impulsos e desejos, além de identificar os mecanismos de defesa que a mente utiliza para encarar o adoecimento.

2. Elementos invisíveis no atendimento: inconsciente e transferência:

O grande valor dessa abordagem está em detectar o que não é dito explicitamente. Isso envolve:

  • Fatores Inconscientes: Elementos que influenciam a forma como o paciente narra seus sintomas.
  • Bagagem Emocional: Como vivências do passado moldam a postura do paciente no presente.
  • Manejo Relacional: A percepção da transferência (sentimentos do paciente projetados no médico) e da contratransferência (reações emocionais do médico perante o paciente).

3. O legado de michael balint e a humanização do cuidado:

Inspirado por Michael Balint, esse modelo defende que a relação entre médico e paciente é uma ferramenta terapêutica poderosa. Por isso, o objetivo é reduzir a separação rígida entre corpo e mente (dualismo cartesiano), permitindo que o médico compreenda o fenômeno emocional como parte integrante da saúde física.

4. Integração e potencialização de diferentes abordagens:

A psicodinâmica não exclui outras teorias; ela serve como uma base de apoio. Nessa lógica, um aconselhamento ou uma terapia sistêmica tornam-se muito mais eficazes quando o médico domina a compreensão dinâmica. Sem essa base, as intervenções podem se tornar superficiais ou falhar em atingir a raiz do problema.

5. Os perigos da padronização e dos conselhos genéricos:

Tratar todos os pacientes com protocolos idênticos ignora a individualidade. Por exemplo, oferecer frases motivacionais ("tente se animar") para alguém com depressão profunda pode ser tão ineficaz e prejudicial quanto sugerir ar puro para alguém em meio a uma crise de asma. Portanto, o foco deve ser na pessoa total e não apenas no diagnóstico CID.

6. Prevenção de erros diagnósticos e da medicalização desnecessária:

Muitas vezes, feridas emocionais (como frustrações narcísicas ou traços de personalidade) são diagnosticadas erroneamente como depressão biológica. Nessa linha de raciocínio, sem a visão psicodinâmica, o médico pode insistir em aumentos inúteis de dosagem de antidepressivos, quando a solução real seria uma psicoterapia focada na estrutura de personalidade do paciente.

7. O bom senso clínico e a prioridade na emergência:

Embora a investigação emocional seja crucial, ela deve respeitar o tempo clínico. Por isso, em casos de urgência física, a prioridade absoluta é estabilizar o paciente. Portanto, a abordagem psicodinâmica ensina que a escuta profunda é essencial, mas deve ocorrer quando o paciente estiver em condições clínicas seguras para dialogar.

8. Agilidade clínica em modelos de atendimento breve

Em consultas rápidas, o conhecimento psicodinâmico é ainda mais necessário. Tendo em vista que ele permite ao médico de família identificar conflitos centrais de forma ágil, utilizando o que se chama de "modelo ampliado". Logo, dominar a teoria ajuda a ler nas entrelinhas e a realizar intervenções pontuais, porém profundas, mesmo em pouco tempo.

Referência: ALBUQUERQUE, Marco A. C. Psicoterapia para médicos de família: a arte de conversar com o paciente. São Paulo: Blucher, 2023. ISBN 978-65-5506-684-5.