Não importa se você é médico especialista e atende no seu consultório ou se é generalista e atende na atenção básica, você certamente terá pacientes pediátricos com sobrepeso ou obesidade. Diante disso, não se omita, é necessário que todo bom médico saiba como diagnosticar e tratar a obesidade infantil.

                                              

  • Por que todo médico precisa saber tratar a obesidade infantil?

   Imagine-se na seguinte situação: você é neurologista, por exemplo, e durante um atendimento percebe que seu paciente está com a pressão arterial em 150x100 mmHg. Mesmo não sendo cardiologista, você certamente faria o diagnóstico de hipertensão arterial e iniciaria o tratamento, não é mesmo?

   De forma análoga, mesmo não sendo pediatra, se você atende uma criança com sobrepeso e obesidade, certamente também deve diagnosticá-la e tratá-la.

   Além disso, esse perfil de paciente é cada vez mais frequente nos consultórios médicos. Segundo Ministério da Saúde, 30% da população pediátrica já tem sobrepeso e quase 10% já está obesa.

   Sendo assim, diagnosticar e tratar o sobrepeso e a obesidade infantil tornou-se uma competência obrigatória para todo bom médico, independente de sua especialidade.

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  • Diagnóstico de sobrepeso e obesidade infantil

   De acordo com as atuais diretrizes da SBP e ABESO, a criança deve ter seu estado nutricional avaliado de acordo com a curva IMC/idade por percentil e escore-Z. A partir de então, é possível diagnosticar o sobrepeso ou obesidade, como mostram a tabela e figura a seguir.

   A SBP recomenda ainda a realização de exames laboratoriais complementares para investigação mais aprofundada sobre a etiologia da obesidade e controle das suas repercussões mais comuns na infância (dislipidemia, alterações do metabolismo glicídico, hipertensão arterial, doença hepática gordurosa não alcoólica, síndrome da apneia obstrutiva do sono e síndrome dos ovários policísticos).

  • Os 4 steps para o tratamento da obesidade infantil

   A SBP recomenda que as crianças e adolescentes com obesidade infantil sejam tratadas em estágios, de acordo com a necessidade de cada paciente.

Step 1: dieta e atividade física, incluindo aumento no consumo de frutas e vegetais e limitando as atividades sedentárias da criança (televisão, vídeo games, celular, computador). Se não houver melhora no IMC em 3 a 6 meses passar para o próximo step.

Step 2: o acompanhamento com nutricionista torna-se necessário. Deve haver ingestão de alimentos com baixa densidade calórica e dieta balanceada, além de atividade física supervisionada de, no mínimo, 60 minutos por dia. Em 3-6 meses, reavaliar necessidade de seguir para o próximo step.

Step 3: esse estágio requer o envolvimento de uma equipe multidisciplinar com experiência em obesidade infantil (nutricionista, psicólogo e educador físico). Crianças com resposta inadequada ao step 3, com riscos aumentados à saúde e baixa motivação devem ser considerados para o step 4.

Step 4: além de tudo o que foi feito anteriormente, inicia-se o tratamento medicamentoso.

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  • Tratamento farmacológico da obesidade infantil

1. Medicamentos antiobesidade

Sibutramina: medicamento de ação central, inibe a recaptação da serotonina, dopamina e noradrenalina no hipotálamo, causando saciedade precoce e aumento do gasto energético. No Brasil, seu uso só é permitido a partir dos 16 anos, mas o médico assistente pode discutir seus riscos e benefícios com pais e paciente para iniciar a droga precocemente.

Orlistate: inibe a lipase pancreática, promovendo redução da absorção de até 30% da gordura ingerida. Seu uso é aprovado a partir dos 12 anos de idade. Além disso, as vitaminas lipossolúveis (A, D, E e K) devem sempre ser suplementadas em dose habituais de reposição durante todo o tratamento.

Metformina: estudos mostraram que a droga foi eficaz na redução de peso e da resistência à insulina. Seu uso na obesidade infantil ainda é off label, podendo ser considerado na falha de resposta às terapêuticas anteriores.

2. Fármacos usados para doenças associadas

Inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS): importantes no tratamento de ansiedade, depressão e compulsão alimentar associados à obesidade.  São exemplos da classe: fluoxetina, sertralina e paroxetina.

Topiramato: droga anticonvulsivante, usada na prevenção da enxaqueca, hipertensão intracraniana idiopática e transtornos alimentares, como compulsão alimentar. Um dos efeitos colaterais é perda do apetite, daí a indicação de sua utilização para tratamento de obesidade.

  • Considerações finais

   Ainda tem dúvidas sobre o assunto? Faça como muitos médicos: capacite-se e atenda melhor seus pacientes. Conheça a Pós-Graduação em Pediatria da Faculdade CENBRAP. 

 

Referências:

  1. Manual de Orientação sobre obesidade na infância e adolescência. Departamento de Nutrologia da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), 2019.
  2. Diretrizes Brasileiras de Obesidade. Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (ABESO), 2016.