1. Por que a memória é um conceito central na psiquiatria?

A memória é fundamental porque organiza a experiência mental ao longo da vida. Pois, ela permite a construção da história pessoal, sustenta a identidade e influencia a personalidade por meio de hábitos aprendidos desde a infância. Além disso, muitos transtornos psiquiátricos envolvem processos de aprendizagem, como fobias, ansiedades e comportamentos desadaptativos. Somado a isso, a própria psicoterapia depende da aquisição de novas experiências e novos padrões de resposta, o que torna a memória um elemento central para mudança e crescimento psicológico.

2. Por que a memória também é importante do ponto de vista clínico?

Alterações de memória são frequentes em doenças neurológicas e psiquiátricas, como demência e esquizofrenia. Além disso, déficits de memória podem surgir como efeito adverso de tratamentos, como a eletroconvulsoterapia. Por isso, o clínico precisa compreender a biologia da memória, reconhecer seus diferentes tipos de disfunção e saber avaliá-la adequadamente.

3. A memória é uma função única ou existem diferentes tipos de memória?

A memória não é uma função única, visto que ela é composta por vários sistemas distintos. Nesse sentido, no uso cotidiano, geralmente nos referimos à memória declarativa, que envolve a recordação consciente de fatos e eventos. No entanto, existem outros tipos de memória que operam de forma inconsciente.

4. O que é memória declarativa?

A memória declarativa é responsável pela lembrança consciente de informações, como:

  • fatos,
  • acontecimentos pessoais,
  • trajetos,
  • listas,
  • rostos,
  • objetos,
  • sons, cheiros e imagens.

Ela inclui tanto a memória de eventos vividos (memória episódica) quanto o conhecimento factual (memória semântica).

5. O que é memória não declarativa?

A memória não declarativa envolve aprendizagens que não exigem consciência explícita, como:

  • habilidades motoras,
  • hábitos,
  • condicionamento simples.

Esse tipo de memória costuma estar preservado mesmo quando há comprometimento grave da memória declarativa.

6. O que aprendemos sobre a memória a partir de pacientes com amnésia?

Pacientes com amnésia geralmente apresentam:

  • comprometimento importante da memória declarativa,
  • preservação relativa da memória não declarativa.

Esses achados foram fundamentais para identificar quais áreas do cérebro são essenciais para a formação e recuperação de memórias conscientes.

7. Qual é a principal característica clínica da amnésia?

A principal característica é a amnésia anterógrada, ou seja, a incapacidade de aprender e reter novas informações após o início da lesão cerebral.
Frequentemente, ela vem acompanhada de amnésia retrógrada, que corresponde à perda de memórias formadas antes do evento causal.

8. Como se comporta a amnésia retrógrada ao longo do tempo?

A amnésia retrógrada costuma seguir a lei de Ribot, na qual:

  • memórias mais recentes são mais afetadas,
  • memórias antigas tendem a ser relativamente preservadas.

9. Outras funções cognitivas são preservadas na amnésia?

Sim. Em quadros clássicos de amnésia:

  • linguagem,
  • atenção,
  • raciocínio,
  • memória imediata,
  • personalidade e habilidades sociais
    costumam estar preservadas.

Isso demonstra que a capacidade intelectual não é sinônimo da capacidade de armazenar novas memórias.

10. Qual a relação entre doença de Alzheimer e memória declarativa?

Na doença de Alzheimer, as alterações neuropatológicas iniciais ocorrem no lobo temporal medial. Por isso:

  • o prejuízo de memória declarativa é um dos primeiros sintomas,
  • isso já pode ser observado na fase de comprometimento cognitivo leve amnéstico,
  • outros domínios cognitivos passam a ser afetados com a progressão da doença.

11. A amnésia pode ocorrer fora do lobo temporal medial?

Sim. Lesões do diencéfalo medial também podem causar amnésia, envolvendo estruturas como:

  • corpos mamilares,
  • núcleos do tálamo,
  • trato mamilotalâmico.

Essas áreas participam de circuitos críticos para a memória declarativa.

12. O que caracteriza a síndrome de Korsakoff?

A síndrome de Korsakoff, geralmente associada ao alcoolismo crônico, resulta de:

  • deficiência prolongada de tiamina,
  • lesões diencefálicas,
  • frequentemente associadas a comprometimento do lobo frontal.

O quadro inclui prejuízo de memória, dificuldades de recuperação de informações e alterações executivas.

13. A memória declarativa depende apenas do hipocampo?

Não. A memória declarativa depende de uma rede distribuída, que inclui:

  • hipocampo,
  • diencéfalo,
  • córtex pré-frontal medial,
  • regiões temporais e parietais.

Lesões pequenas em qualquer ponto dessa rede podem produzir um quadro clínico semelhante ao da amnésia hipocampal.

14. Qual é a principal conclusão clínica sobre a biologia da memória?

A capacidade de lembrar fatos e experiências pessoais depende da integridade de uma ampla rede cerebral, centrada no hipocampo, mas integrada a múltiplas regiões corticais e subcorticais. Compreender essa organização ajuda o clínico a:

  • interpretar padrões de déficit de memória,
  • localizar lesões prováveis,
  • diferenciar transtornos neurológicos e psiquiátricos,
  • planejar avaliação e manejo adequados.


Referência: BOLAND, Robert J.; VERDUIN, Marcia L. (Eds.). Kaplan & Sadock's Comprehensive Textbook of Psychiatry. 11. ed. Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins, 2024.