Prevalência elevada de transtornos psiquiátricos:
Diversos estudos demonstram que adolescentes e adultos com HIV apresentam prevalência significativamente maior de transtornos mentais em comparação à população geral, com taxas que podem chegar a 75% a 83% em alguns contextos. Por isso, algumas categorias de transtornos merecem atenção especial devido à sua frequência ou ao impacto negativo sobre desfechos clínicos e risco de transmissão do HIV.
Depressão - impacto clínico e manejo:
A depressão é um dos motivos mais frequentes de encaminhamento para tratamento em saúde mental entre pessoas com HIV. Nesse sentido, sua prevalência é duas a três vezes maior do que na população geral, e existe uma importante lacuna no acesso ao tratamento, especialmente entre jovens pertencentes a minorias.
A avaliação sistemática da depressão é fundamental na prática clínica, mesmo quando não é a queixa principal. Somado a isso, a Academia Americana de Pediatria destaca o maior risco de depressão e ideação suicida entre jovens de minorias sexuais e recomenda o rastreamento como parte da anamnese psicossocial.
Alguns antirretrovirais, como o efavirenz, podem causar ou agravar sintomas depressivos, exigindo revisão do esquema terapêutico. Por isso, a depressão não tratada aumenta comportamentos sexuais de risco, uso de substâncias, reduz adesão ao tratamento e eleva o risco de suicídio.
Além disso, sintomas cognitivos da depressão, como lentificação e apatia, podem mimetizar transtornos neurocognitivos associados ao HIV, devendo sempre ser considerados no diagnóstico diferencial.
O tratamento farmacológico segue os mesmos princípios aplicados a outras populações, com atenção especial para interações medicamentosas com a TARV. Portanto, a psicoterapia, especialmente abordagens baseadas em evidência como a terapia cognitivo-comportamental, pode ser adaptada para abordar questões específicas do HIV, incluindo adesão ao tratamento.
Transtornos de ansiedade e estresse pós-traumático:
Embora a prevalência ao longo da vida de transtornos de ansiedade possa ser maior em adultos com HIV, esse tema é menos explorado na literatura. Logo, em estudos com jovens infectados, cerca de 16% a 17% apresentam sintomas clinicamente significativos de ansiedade.
O transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) é particularmente relevante, com prevalências estimadas entre 30% e 64% em adultos com HIV. Desse modo, muitos jovens com HIV já vivenciaram estressores crônicos antes do diagnóstico, como discriminação, pobreza, violência, abuso, migração forçada ou situação de rua.
Após o diagnóstico, somam-se o trauma do recebimento da notícia, o medo do estigma, a ansiedade relacionada à revelação do status sorológico e preocupações com o futuro. Assim, o impacto do estresse e do trauma sobre a inflamação e a função imune reforça a importância da identificação e do tratamento desses quadros.
Intervenções psicoterapêuticas individuais ou em grupo devem considerar os estressores agudos e crônicos dessa população. O uso de psicofármacos baseia-se em evidências da população geral, com cautela quanto a sedação e confusão mental, especialmente em pacientes com comprometimento cognitivo.
Psicose e transtornos mentais graves:
Pessoas com transtornos mentais graves apresentam maior risco de infecção pelo HIV, em razão de fatores como uso de substâncias, troca de sexo por dinheiro ou drogas, moradia instável e menor acesso a medidas preventivas.
Embora menos comum em adolescentes, sintomas psicóticos ou episódios maníacos de início tardio podem surgir em estágios avançados da infecção ou em associação a infecções oportunistas do SNC. Nesses casos, os sintomas podem responder ao uso de antipsicóticos em doses baixas.
Uso de substâncias - implicações clínicas e neurocognitivas:
O uso de drogas injetáveis é uma via importante de transmissão do HIV em algumas regiões do mundo. Já em adolescentes com HIV, o uso de substâncias é relevante como comorbidade psiquiátrica, fator de risco para comportamentos sexuais inseguros, má adesão ao tratamento e possível agravamento do comprometimento neurocognitivo.
Em adultos, substâncias como álcool e metanfetamina estão associadas à piora do desempenho cognitivo relacionado ao HIV. Em adolescentes, a literatura ainda é limitada, mas há preocupação adicional devido à maior vulnerabilidade do cérebro em desenvolvimento. Estudos sugerem interação entre HIV e álcool, com impacto negativo sobre a cognição.
Entre jovens em acompanhamento clínico, as substâncias mais frequentemente utilizadas são cannabis, tabaco e álcool, embora o uso de metanfetaminas, opioides, drogas recreativas e cocaína varie conforme a região.
Estratégias de engajamento e redução de danos:
Garantir o engajamento de jovens usuários de substâncias no cuidado em saúde é essencial do ponto de vista clínico e de saúde pública. Estratégias eficazes incluem a integração do tratamento do uso de substâncias com os serviços de saúde mental e HIV, além da redução do estigma no atendimento.
Quando a abstinência não é viável, abordagens de redução de danos, voltadas à diminuição de comportamentos de risco para transmissão do HIV, são indicadas. Intervenções baseadas em evidência e adaptadas para jovens, como a entrevista motivacional, podem ser aplicadas em diferentes contextos assistenciais.
Referência: BOLAND, Robert J.; VERDUIN, Marcia L. (Eds.). Kaplan & Sadock's Comprehensive Textbook of Psychiatry. 11. ed. Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins, 2024.