1. Composição e características do álcool:

O termo "álcool" abrange uma ampla variedade de moléculas orgânicas que possuem um grupo hidroxila (-OH) ligado a um átomo de carbono. Nessa lógica, o tipo de álcool mais comum é o álcool etílico, ou etanol, que é o álcool encontrado nas bebidas alcoólicas. Porém, o sabor das bebidas alcoólicas é influenciado pelos métodos de produção, que geram diferentes compostos chamados congêneres, como metanol, butanol e taninos. Esses congêneres podem ter efeitos psicoativos, mas são menos significativos comparados ao próprio etanol.

  1. Definindo a dose padrão de álcool:

Uma dose padrão de álcool contém cerca de 12 gramas de etanol, equivalente a 355 mL de cerveja (com 3,6% de teor alcoólico), 118 mL de vinho, ou 30-45 mL de destilados como uísque ou gim. Por isso, ao avaliar a ingestão de álcool de um paciente, o clínico deve considerar variações no teor alcoólico e tamanhos das porções, já que isso influencia a estimativa do aumento do nível de álcool no sangue. Em um homem de 68 kg, uma dose pode elevar a concentração de álcool no sangue em 15 a 20 mg/dL, que é metabolizada em aproximadamente uma hora.

  1. Absorção do álcool no corpo:

Cerca de 10% do álcool ingerido é absorvido pelo estômago, e o restante pelo intestino delgado. A concentração máxima no sangue é atingida entre 30 e 90 minutos após a ingestão, dependendo se o álcool foi consumido com ou sem comida. Desse modo, bebidas com teor alcoólico entre 15% e 30% são absorvidas mais rapidamente. Além disso, o corpo possui mecanismos de defesa, como a secreção de muco e o fechamento da válvula pilórica, que retardam a absorção de grandes quantidades de álcool e podem causar náuseas e vômitos.

  1. Metabolismo do álcool:

Cerca de 90% do álcool absorvido é metabolizado no fígado, enquanto os 10% restantes são excretados pelos rins e pulmões. Assim, o fígado metaboliza o álcool a uma taxa constante, aproximadamente 15 mg/dL por hora, através das enzimas álcool desidrogenase (ADH) e aldeído desidrogenase. 

Processo enzimático:

  1. Conversão de álcool em acetaldeído:
  • Enzima: Álcool desidrogenase (ADH);
  • Produto: Acetaldeído (composto tóxico).
  1. Conversão de acetaldeído em ácido acético:
  • Enzima: Aldeído desidrogenase;
  • Produto: Ácido acético (menos tóxico).

Importante destacar que algumas populações, como certas mulheres e indivíduos asiáticos, podem ter menor atividade dessas enzimas, resultando em maior suscetibilidade à intoxicação.

  1. Efeitos do álcool no cérebro

No cérebro, o álcool age como um depressor do sistema nervoso central, semelhante aos barbitúricos e benzodiazepínicos. 

Intensificação da atividade nos receptores:

  • Acetilcolina (nicotínico);
  • Serotonina (5-HT3);
  • GABA (GABAA).

Inibição da atividade:

  • Receptores afetados: Glutamato
  • Canais inibidos: Canais de cálcio (dependentes de voltagem)

Em níveis mais elevados no sangue, o álcool pode causar desde relaxamento do pensamento e da inibição até confusão, estupor e coma, dependendo da concentração.

  1. Impacto do álcool no sono:

Embora o álcool possa inicialmente facilitar o adormecimento, ele prejudica a arquitetura do sono, reduzindo as fases de sono REM (associado aos sonhos) e de sono profundo, além de fragmentar o sono com despertares mais frequentes. Portanto, a ideia de que o álcool melhora o sono é um mito.

  1. Impactos no fígado:

O consumo de álcool, mesmo que ocasional ou em grandes quantidades durante eventos específicos, pode causar danos ao fígado. Isso inclui o acúmulo de gorduras e proteínas, que pode levar ao aumento do órgão, conhecido como hepatomegalia. Embora ainda não esteja totalmente claro como esse acúmulo se relaciona com danos graves ao fígado, sabe-se que o uso prolongado de álcool pode causar hepatite alcoólica e cirrose hepática, que são condições graves e de difícil tratamento.

  1. Efeitos no sistema digestivo:

O consumo excessivo de álcool por longos períodos pode causar uma série de problemas no sistema digestivo, incluindo inflamações no esôfago (esofagite), inflamação no estômago (gastrite), ausência de ácido gástrico (acloridria) e úlceras gástricas. Nesse sentido, em casos graves de abuso de álcool, podem surgir varizes esofágicas, cuja ruptura representa uma emergência médica com alto risco de morte por hemorragia. Além disso, o álcool pode causar problemas no intestino delgado, pancreatite e até câncer no pâncreas. Logo, o abuso de álcool também interfere na digestão e absorção de nutrientes, o que pode levar a deficiências nutricionais significativas, especialmente de vitaminas do complexo B.

  1. Efeitos no coração e outros sistemas corporais:

O consumo significativo de álcool pode aumentar a pressão arterial, alterar o metabolismo das gorduras no sangue, e aumentar o risco de infarto do miocárdio e derrames. Mesmo em pessoas que normalmente não bebem, o álcool pode aumentar a frequência cardíaca e o consumo de oxigênio pelo coração, colocando o órgão sob estresse. Além disso, o consumo de álcool está relacionado a um maior risco de câncer em várias partes do corpo, incluindo a cabeça, pescoço, esôfago, estômago, fígado, cólon e pulmões. O álcool também pode causar hipoglicemia aguda, o que pode ser fatal se não for tratada. Outros efeitos incluem fraqueza muscular e, em mulheres, o aumento do estradiol no sangue, o que pode ter várias implicações para a saúde.

  1. Testes laboratoriais e diagnóstico:

Os efeitos adversos do álcool podem ser identificados em exames de sangue comuns, que são úteis para o diagnóstico de transtornos relacionados ao álcool. 

Níveis elevados:

  • Gama-glutamil transferase (GGT): 80% dos casos;
  • Volume corpuscular médio (VCM): 60% dos casos (mais comum em mulheres).

Outros marcadores:

  • Ácido úrico;
  • Triglicerídeos;
  • Aspartato aminotransferase (AST);
  • Alanina aminotransferase (ALT).

Interações medicamentosas perigosas:

Metabolismo hepático:

  • O álcool pode acelerar o metabolismo de medicamentos, como o fenobarbital, que são metabolizados pelo fígado.
  • Efeito: Em estado sóbrio, a tolerância a sedativos pode aumentar, mas durante a intoxicação, há competição entre o álcool e a droga, elevando o risco de níveis tóxicos no sangue.

Potencialização de depressores do SNC:

  • O álcool pode intensificar os efeitos de outros depressores do sistema nervoso central, como sedativos e analgésicos.
  • Riscos: Aumento da sedação excessiva, depressão respiratória e potencial risco de morte.

Orientação aos pacientes:

  • É essencial alertar os pacientes sobre os perigos de combinar álcool com esses medicamentos.
  • Cuidados Especiais: Evitar essa combinação, especialmente ao realizar atividades que exigem atenção, como dirigir.